Um percurso de vida, amor e arte

Foto de Marceli Mazur
Marceli Mazur

Acompanhar o percurso da Marceli Mazur, que enfrentou um câncer de mama e um tortuoso tratamento, me ensinou sobre a afirmação da vida no exercício do amor por si mesma.


Se há 10 anos me dissessem que eu estaria morando no Rio, acompanhando diversas mulheres incríveis do Brasil e da Europa em seus percursos de autoconhecimento, eu não teria acreditado.

A vida definitivamente não é linear e previsível, como um passeio no parque com direito a algodão doce, mas sim caótica e transitória e, em alguns momentos, está mais para a montanha russa ou o barco viking. 

E em outros momentos, se assemelha a um jogo de queimada, com direito a rasteira, quedas na lama e muitos ferimentos. Algumas pessoas podem optar em se manter em uma zona segura e conhecida ou entrar no campo e ficar tentando desviar da bola. 

Mas ela fatalmente vai acertar a todas, a qualquer momento, de um modo ou de outro. E quando ela nos acerta, há dor e sofrimento, mas também aprendizado e vitória. É isso que tenho aprendido acompanhando o percurso de autoconhecimento dessas mulheres.

Eu acredito que receber um diagnóstico de câncer de mama é como levar uma bolada na cara e uma rasteira ao mesmo tempo, tão intensas que te fazem cair já machucada. Há muita dor envolvida, física, psíquica e emocional. E somente quem passou, sabe o tamanho e a intensidade. 

Quando eu comecei a acompanhar o percurso da Marceli Mazur, que havia enfrentado um câncer de mama e atravessado um longo e tortuoso tratamento, ela estava iniciando o processo de reconstrução. 

O que muitas pessoas não sabem é o desafio esmagador que isso se torna, quando se teve uma mama retirada de forma radical. A reconstrução se torna quase ou tão sofrida quanto a quimio e a radioterapia, envolvendo idas e vindas do hospital e incontáveis cirurgias, o que é um gatilho bem pesado para quem passou dois anos em tratamento. 

O percurso da Marceli me ensinou muito. Não sobre as agruras do câncer de mama e da perda de um peito, o medo presente na iminência da morte ou o sofrimento envolvido na tentativa de reconstrução de um peito, resiliência e superação. 

Ensinou-me sobre a afirmação da vida, o exercício do amor por si mesma, a aceitação das mudanças inevitáveis no corpo, a necessidade de colocar o autocuidado como prioridade e de se estabelecer um centro interno calmo em meio ao caos. E tem me ensinado sobre resistir as inúmeras opiniões e demandas sobre seu corpo, que dizem que tem de ser de uma determinada forma e que o humor e a música podem salvar sua alma nas noites escuras. Há uma certa elegância e muita dignidade nesse percurso.  

Olhar o nosso corpo e nossa vida como um campo natural, entendendo as mudanças de estação, as mortes e renascimentos, o ciclo de germinação, florescimento e degenerescência, coloca as coisas em perspectiva e amplia nossas possibilidades de viver melhor e nos sentirmos realizadas, facilitando nossas jornadas de cura, tanto físicas quanto emocionais. 

Entender doença e cura como processos, em que o tempo todo estamos fazendo escolhas claras entre a reatividade e a criatividade, o cansaço e a vontade de desistir e a potência e o desejo de continuar no jogo vai muito além do que é lembrado no Outubro Rosa, campanha pela prevenção do câncer. 

Isso serve para qualquer desafio que se interponha em nosso caminho: não é sobre desviar, empurrar para o lado ou mesmo fugir. Até porque há coisas das quais não é possível se esquivar. 

É preciso mais, é preciso querer superar, ultrapassar, atravessar, ir adiante, encontrar a outra margem, mesmo que signifique nadar em um rio de piranhas. É preciso querer viver além do simples existir. Se conservar é muito pouco para a abundância de vida e paisagens disponíveis para nós. 

Eu assisti Marceli buscar criar beleza em cada pequeno momento de seu cotidiano agora limitado, eu a vi ultrapassar barreiras físicas e enfrentar desafios inimagináveis para um ser humano dito normal, para ficar de bem com a quimioterapia.

A dor pode ser algo realmente acachapante e desafiador, principalmente quando é constante e intensa, mas não é um empecilho quando alguém decide se manter em pé. É preciso uma grande dose de disciplina e um desejo intenso por mais vida. 

Eu amo árvores e costumava chorar quando as via sendo podadas. Mas não há coisa mais nostálgica e bela do que ver uma vida se regenerando, se afirmando. E elas sempre voltam a florescer. 

Em minha casa no Rio, eu pude co-criar um jardim. Observar os ciclos de germinação, florescimento, degeneração e regeneração e a relação entre espécies diferentes de plantas, insetos e animais, ora simbiótica, ora colaborativa e, em outras, desarmônica e fatal. É um enorme aprendizado. 

Observar um jardim nos ajuda a perceber que tudo está em relação e nada realmente se perde, até o que pensamos estar morto, pode ser matéria para gerar vida nova. Algo se alimenta, outro é alimento. E as vezes a poda é necessária. 

Eu entendi que o câncer acontece quando uma célula, por uma alteração genética,  “enlouquece” e deixa de seguir as instruções e ciclos normais de crescimento, divisão, vida e morte e passa a se multiplicar em velocidade acelerada e a invadir outros tecidos, sendo capaz de formar novos vasos sanguíneos que a nutre e mantém seu crescimento descontrolado.  Egoísta, ela deixa de colaborar no sistema do corpo e passa a querer controlar tudo. É o poder contra a potência, algo que assistimos no mundo, desde que estamos presentes nele.

Na vida, não há escassez e sim abundância. Há uma potência em acontecimentos constantes, uma potência se experimentando em diversas formas. A vida está acontecendo todo o tempo, mesmo quando não estamos observando. E ela não precisa de nós para seguir sendo, vivendo. Nós podemos escolher fluir com ela, em mútua colaboração. 

O Percurso da Marceli me ensinou que câncer de mama não é sobre peitos. É sobre amor, aceitação, qualidade de vida, saúde e autocuidado. É sobre a vida e os aprendizados contidos nas experiências e novas oportunidades de se expressar. É sobre fluir de forma criativa e afirmar nossos desejos de criar mais vida. 

Talvez o câncer tenha sido um desvio de rota ou simplesmente a tenha colocado novamente no seu caminho de artista. Eu agradeço o privilégio de ter podido acompanha-la e contribuir com esse retorno a arte. 

Hoje, mais do que uma mulher cujo percurso terapêutico eu acompanho, Marceli é uma amiga e uma parceira de trabalho, uma artista sensível e bem humorada que tem contribuído lindamente com o Percurso com suas imagens oníricas e singulares. A partir dela, como um tronco de uma árvore que gera muitos galhos, vieram muitas outras mulheres, por indicação, formando uma rede belíssima e forte.  

Marceli tem me mostrado que a vida pode ser leve, mesmo quando se torna um fardo pesado demais. Uma pessoa em cuja história eu me inspiro todas as vezes que me sinto desanimar.  

Espero que sua história lhe inspire também a buscar viver mais e melhor.