Ser social é uma forma evoluída de adaptação

Artwork: Marceli Mazur

"Se existe uma força que alimenta a raiz da dor, ela é a recusa a aprender além do momento presente." Clarissa P. Estes


Sei que estamos vivendo tempos difíceis, não vou negar e tampouco minimizar. A maioria das pessoas vem se sentindo muito mal, vivendo emoções intensas de tristeza, medo e insegurança, experimentando sentimentos de confusão, solidão e cansaço. E há muitas pessoas vivenciando o luto nesse momento.

Sei que a situação está ruim e que a tendência, se não nos conscientizarmos coletivamente, é piorar. E podemos entender que estamos em uma guerra: uma batalha da consciência contra toda forma de egoísmo, falta de solidariedade e do modo equivocado de fazer política pública que não se engaja no controle de danos nessa situação de catástrofe coletiva. 

Parece que estamos em uma espécie de salve-se quem puder, cada um correndo para um lado, como se alguém tivesse pisado em um formigueiro.

Porém, é bom salientar que formigas são seres extremamente evoluídos em organização social e, mesmo diante de uma perturbação catastrófica, encontram a conexão perdida com a trilha, reajustam a bússola e refazem a rota, sendo que uma colônia pode mudar completamente de comportamento a partir de aprendizados produzidos por eventos passados. E pode prosperar por décadas com essa memória coletiva, segundo artigo da professora de biologia da Universidade Stanford, Deborah M. Gordon (fonte: https://noticias.ambientebrasil.com.br).

E por isso eu vim lhe falar sobre resiliência social e evolutiva. Decidi que este era um momento de me aprofundar nesse tema e, por isso, estou fazendo um curso online pela Universidade da Pensilvânia (Coursera) e lendo o livro Florescer - Uma nova compreensão sobre a natureza da felicidade e do bem-estar, de Martin Seligman, um dos criadores da Psicologia Positiva. 

Podemos entender a resiliência social como “a capacidade de promover, se engajar e sustentar relacionamentos positivos, e suportar e se recuperar de eventos estressores e do isolamento social”. John Cacioppo (Florescer – Seligman, Martin E.P.  pag 179). 

Já a resiliência evolutiva é um passo além de resistir a uma circunstância difícil ou um evento grave e retornar ao seu estado normal. Este conceito sugere que podemos ir além e evoluir a partir de situações complexas e de traumas. 

Nesse sentido, talvez tenhamos de entender como seleção natural a sobrevivência de tribos mais desenvolvidas em qualidades como resiliência, lealdade, coragem, empatia e compaixão e cujos membros fossem capazes de se sacrificar pelo bem comum. (paráfrase de Darwin)

O que seria viver heroicamente diante dos acontecimentos atuais? Certamente não é desafiar as circunstâncias e, mesmo sem uma necessidade que justifique, arriscar sair do confinamento. Não. Isso é, para dizer o mínimo, irresponsabilidade porque, ao fazer isso, não está colocando somente a própria saúde em jogo e sim a vida de outras pessoas.  

Heróis e heroínas tem sido profissionais de saúde que estão na linha de frente salvando vidas, enquanto arriscam as suas. E, mesmo com falta de insumos como medicamentos e respiradores, estão fazendo o melhor que podem em circunstâncias completamente adversas.  E as pessoas que têm de continuar trabalhando no regime presencial e se arriscam nos transportes coletivos lotados para garantir a manutenção dos serviços essenciais. E um exército de voluntários e voluntárias que tem garantido a subsistência de pessoas em situação de rua ou condições precárias, que se arriscam para entregar cestas básicas, pratos de comida e produtos de higiene.  E tantas outras pessoas que de fora ou de dentro de casa, tem superado o contexto desfavorável, se ocupado das outras pessoas e feito a diferença. 

Então eu quero falar sobre resiliência porque o momento presente está nos exigindo uma grande dose de resistência emocional e habilidades de pensamento crítico, iniciativa, proatividade, empatia, compaixão, maturidade e senso de coletividade. 

E eu gostaria de provocar uma reflexão em toda pessoa que estiver lendo esse texto: qual seu grau de resiliência emocional? O que você tem feito com o que a pandemia tem feito com você?

Eu respeito as diferenças e entendo que cada pessoa tem seu ritmo próprio, características e capacidades individuais. Em um contexto pessoal e profissional, eu jamais comparo as pessoas, tendo a ver cada uma como um universo, com sua própria biografia e particularidades. E eu realmente as aprecio do mesmo modo, sem distinção, porque gosto do ser humano, sou uma estudiosa do comportamento e muito curiosa sobre o mundo interior de cada uma.

Porém, em um contexto coletivo, eu venho investigando sobre o que leva algumas pessoas a terem uma maior capacidade de superar obstáculos, lidar com mudanças indesejáveis, situações adversas ou tragédias com maior facilidade que outras. E o que leva algumas pessoas a se fecharem em seus próprios problemas, enquanto outras se engajam em buscar soluções para os problemas do mundo. 

Bem, nosso sistema límbico está totalmente envolvido na sobrevivência. Nosso córtex pré-frontal é responsável pelo sistema de autopreservação e preservação da espécie, usando conexões para entender o cenário, simular as soluções e escolher as ações necessárias. Não fosse por este maravilhoso sistema, nem teríamos sobrevivido, quanto mais chegado tão longe. Somos seres gregários que passam grande parte do tempo envolvidos em encontrar soluções para questões relacionais. Sobreviver e preservar a espécie é parte de nossas aptidões naturais e isso se dá mais pela cooperação que pela competição.  

“Ser social é uma forma evoluída de adaptação.” diz Seligman, afirmando que não há nada que nos faça sentir melhor do que ajudar outra pessoa. Sim, a resiliência social tem como uma das bases a empatia, capacidade de identificar o sofrimento do outro, explicada por uma atividade cerebral dos chamados “neurônios-espelho”. 

A capacidade de resiliência pode ser herdada, mas também desenvolvida a partir de algumas atividades. Então, se você quiser treinar sua resiliência emocional e social, faça o bem. E se desafie e siga algumas (ou todas) dicas abaixo:

  • Treine o otimismo e busque desenvolver uma atitude mais positiva
  • Busque os aprendizados contidos em cada situação desafiadora
  • Nutra seus relacionamentos, mantendo-se conectade mesmo a distância
  • Mantenha-se flexível, busque ajustar sua bússola e encontre maneiras de se adaptar às situações
  • Libere o estresse e a tensão com atividades diárias (práticas criativas e expressivas, como escrita, desenho, pintura, dança ou canto)
  • Faça terapia e pratique meditação
  • Melhore seus hábitos (exercícios físicos, alimentação equilibrada, leitura e qualidade de sono)
  • Desenvolva autoestima e autoconfiança pela via do autoconhecimento
  • Sorria e ria, busque alívio cômico, pratique o bom humor
  • Desenvolva a imaginação, use técnicas de visualização criativa e crie memória de futuro
  • Se engaje em algum trabalho social ou contribua para alguma instituição

Fonte: How to Overcome Obstacles in Your Life: Resilience


Em tempo, sejamos mais como as formigas, trabalhando para o coletivo e tirando experiências positivas e aprendizados de tudo o que estamos vivenciando, por mais difícil que seja. Quem sabe poderemos juntes construir um mundo melhor e deixar como legado para as próximas gerações?