Pelo prazer de fazer o que quer e de não fazer nada se não quiser

Sociedade do cansaço
Colagem analógica por Malu Aguiar

Já faz um tempinho que não escrevo aqui nesse blog, precisamente desde novembro do ano passado. E a última vez que publiquei aqui estava falando sobre nossa relação com o tempo e com o trabalho e como a pandemia escancarou certas relações de poder pelo qual sofremos captura de nosso desejo e potência.

O fato é que o trabalho consome grande parte do nosso tempo, mesmo com a tecnologia tão inserida no nosso cotidiano que só notamos quando ela nos falta, em caso de falhas em sistemas ou queda de sinais.

E a pandemia só reforçou o grande privilégio da inclusão digital exatamente por escancarar o deserto habitado por quem dela se vê excluído. O que teria sido de nós sem acesso à Internet durante os dois anos em que nos mantivemos em reclusão? 

A facilidade que os aparelhos eletrônicos e a Internet promovem poderia nos salvar grandes blocos de tempo livre, mas ao contrário disso, acaba por engoli-lo. Não precisamos mais passar horas na fila do banco para pagar nossas contas ou sequer precisamos ir ao supermercado, o novo sistema garante rapidez no pagamento e nas entregas, às custas da força de trabalho e do consumo de vidas.

Ainda assim, muitas pessoas que fazem uso da tecnologia em sua rotina não têm tempo livre: ou o pouco que sobra escorre entre os dedos ou o dedicam ao uso de mais tecnologia, nos serviços de streaming ou redes sociais. O sistema garante manter nossa ocupação de meros seres de produção e consumo e a inteligência artificial somada ao algoritmo registra o que vemos ou até mesmo o que escrevemos em uma mensagem privada, replica e cria redundância infinita dessas informações até nos vencer pelo cansaço.

E por falar em cansaço, ficamos entre a prostração espectadora, a produtividade insana e a positividade tóxica e seguimos consumindo nosso tempo em compensações cotidianas, alimentando uma vida cada vez mais artificial e de automatismos. Com isso, vamos perdendo o propósito da nossa existência, a conexão com nossos sentidos e sentires, nossa alegria, nossa criatividade e nossa habilidade de criar memória de futuro.

Estamos sacrificando nossa capacidade de moldar a realidade com nossas mãos, dar forma ao mundo e criar. 

Por isso, há uma série de provocações que faço nos percursos que acompanho sobre o uso do tempo, a necessidade de estabelecer um olhar crítico no uso das redes sociais e o doce aprendizado do “tédio” e da observação de “coisas mínimas” do cotidiano.

E tenho encontrado um número cada vez maior de pessoas, entre as quais minhas clientes, que têm buscado os saberes ancestrais, as práticas manuais de gerações passadas - como crochê e bordado, a cozinha afetiva, a jardinagem, as hortas urbanas e até se arriscado nos traços do desenho, mergulhado na fluidez da aquarela ou se dedicado ao bom embate com o barro, na cerâmica.

Todas essas práticas são modos de reconexão, de honrar o campo familiar e de manter vivas as memórias afetivas.  Afinal, precisamos dar forma ao mundo do nosso modo e sermos capazes de produzir e usufruir além dos bens de consumo ou informações, os afetos duráveis.

Aqui no meu pequeno mundo, tenho me dedicado a observação da natureza na tessitura das aranhas e nos ciclos das maravilhas de flores delicadas e cheiro intenso que se espalham com uma velocidade espantosa, para nos lembrar que a vida sempre pede por mais vida. E que essa intensidade e essa potência de acontecer também nos anima, faz parte de nós.

Nesse movimento interior, tenho retornado à escrita de ficção e à trama dos poemas, ao cozinhar lento e afetuoso, às colagens e à costura. Esse tem sido meu modo de manter o coração quentinho e a mente quietinha.

E você? O que tem se dado ao prazer de fazer?