Liberdade de voar em um horizonte qualquer. Liberdade de pousar onde o coração quiser.

Artwork: Marceli Mazur

Eu direcionei o projeto Percurso para mulheres como uma forma de celebrá-las, por observar desde muito, que o número de mulheres que me procuram é infinitamente maior do que o de homens. O fato é que mulheres buscam processos terapêuticos e de autoconhecimento muito mais do que os homens. E eu atribuo isso não só ao fato de que as mulheres ainda carregam muitas dores emocionais decorrentes de uma cultura violenta e que as oprime e desfavorece, mas também pelo seu desejo de desenvolvimento, expansão e liberdade.

É natural que se uma categoria humana é privada por séculos de sua liberdade, essa passa a ser o foco principal de seu desejo.

Eu tenho tido o privilégio de acompanhar o percurso de autoconhecimento de mulheres brilhantes. Elas são inquietas, inteligentes e criativas e cada uma carrega uma linda história de perdas e roubos da pele da alma, auto superação e conquistas. O que tenho aprendido com seus percursos é que mulheres são como as árvores que, mesmo que sofram podas terríveis, são capazes de se regenerar, de criar vida novamente onde parecia que havia somente um grande tronco morto. 

Isso acontece enquanto estiverem ligadas a terra (e algumas vezes mesmo que tenham sido arrancadas com raízes e tudo de seu solo original, voltam a florescer).  

Mulheres e árvores são grandes acontecimentos no mundo. São elas as responsáveis pela manutenção da vida humana em nosso planetinha. Mulheres trazem a lua em seu corpo e o sol em seu coração. E a luz deste sol interior ilumina as sombras do mundo, faz os brotos humanos crescerem, banham o mundo com amor. 

Uma das grandes conquistas do feminismo foi trazer às mulheres a liberdade de escolha, da qual foram privadas por tantos séculos. E elas descobriram que são capazes de tudo, que podem ser elas mesmas e podem ser quem elas quiserem ser e não tem limites para o que podem criar no mundo. Elas se autorizaram a sonhar e voar por grandes altitudes e distâncias. 

Como plantas trepadeiras, basta encontrar apoio e não haver nada que interfira em seu caminho e vão subindo e escalando cada vez mais alto. 

Mulheres desde muito sonham e lutam por um mundo onde as diferenças se somam e não se subtraem, onde toda pessoa possa ser celebrada em sua diversidade e gozar da liberdade de ser quem é, seu direito inato. 

Como os pássaros canoros que cantam mesmo em gaiolas, suas vozes não podem ser silenciadas.

Elas estão cada vez mais livres, voando cada vez mais alto, se tornando cada vez maiores. E não há nada ou ninguém que as possa fazer diminuir de tamanho. Porque seguem crescendo mesmo que doa, seguem caminhando mesmo exaustas, seguem enfrentando mesmo com medo, seguem voando mesmo com as asas feridas. 

Ser mulher nada tem a ver com a questão biológica. Há mulheres com útero, há mulheres com pênis, assim como há homens com útero. E todas essas pessoas têm em comum uma luta que passa por essa construção social do ser mulher e a opressão imposta por aqueles que se sentem superiores e se autorizam a julgar o que é ser uma mulher.

Quando todos esses limites forem explodidos e essas fronteiras de gênero forem derrubadas, ali estarão essas pessoas que performam ou não a feminilidade à frente, não com bombas e marretas, mas com flores e as sementes de um novo mundo. Um mundo de sonho que se tornará real porque nós acreditamos nele. Um lugar onde todes possam ser quem são ou desejarem ser e terem sua alteridade respeitada. 

E mesmo que muitas mulheres ainda sofram o peso da opressão, se sintam presas aos estereótipos de gênero, aos padrões culturais e sociais impostos a elas e ao julgamento dos outros, diante da porta da gaiola que agora está aberta, elas também estão sendo convidadas a alçar voo. 

Que o velho mundo não subestime a coragem, a força e a energia das mulheres de lançar as bases para produzir novas realidades e construir um mundo novo.