Escrita curativa: uma prática de autoconhecimento

Na escrita, você pode experimentar a liberdade de expressar pensamentos que não diria a ninguém.

Vivi uma época em que se tinha muitos problemas de ordem psicológica e emocional, mas o tratamento psiquiátrico ou terapia eram restritos a casos graves ou à elite financeira. Um período em que ainda havia muito preconceito sobre saúde mental e a necessidade de acompanhamento terapêutico.

E foi nos livros que forravam uma parede inteira da sala da minha casa de infância e nas minhas idas a biblioteca do Centro Cultural São Paulo, durante a minha adolescência, que comecei a entender a psique humana e a importância do conhecimento e do autoconhecimento para a construção de uma sociedade sustentável. E meu conhecimento foi construído sobre esses saberes, somados à literatura, à filosofia e à arte. 

O conhecimento é um bem inestimável e o autoconhecimento é uma espécie de alfabetização de si mesme. A mistura dos dois produz uma vida ativa e potente e ambos criam autonomia. 

Desde criança eu lia muito e comecei a escrever muito cedo. E minha única terapia, durante muito tempo, foi escrever diariamente, por toda minha adolescência e início da vida adulta até o momento em que tive acesso à atendimento terapêutico. A partir daí a escrita se somou ao diálogo e ao movimento na construção de quem eu me tornei.  Por isso, eu sou tão apaixonada pela escrita curativa, que indico a todas as pessoas cujo percurso acompanho. 

É importante salientar que os encontros semanais de sessenta minutos na terapia não serão suficientes para dar conta do conteúdo de uma vida que você tem de trabalhar internamente. E entender a terapia como um apoio em seu percurso e não o repositório de soluções para todas as suas questões. É preciso, como diz o filósofo Luiz Fuganti, fazer a lição de casa. Nesse sentido, a escrita de si é uma excelente aliada em seu processo de autoconhecimento. 

Manter um diário é ter uma relação íntima e cotidiana consigo mesme. Escrever à mão é criar uma resistência a essa captura eletrônica e automática que congela o gesto. Escrever em um caderno ou bloco diariamente, sem qualquer preocupação formal ou propósito, funciona como uma luz refletora sobre cantos interiores obscuros. 

Sim, eu sei. Escrever um diário dá trabalho e demanda tempo, mas é um excelente desabafo para momentos difíceis em que estiver experimentando emoções complexas, depurar uma conversa antes que ela degenere em desentendimento e lançar luz aos complexos e traumas que você carrega.

Na escrita, você pode experimentar a liberdade de expressar pensamentos que não diria a ninguém. 

Mas a escrita curativa é mais que um desabafo terapêutico ou “emergência curativa da dor”, como afirma a escritora e doutora em teoria literária Geruza Zelnys, autora da oficina “Escrita curativa: Da pele ao papel”, do livro “esse livro não é para você”, entre outros títulos. 

“É o texto pelo texto, então eu não penso que a escrita levará a alguma coisa... a escrita é um fim nela mesma. Eu não vou trabalhar para me livrar de um trauma, mas eu vou trabalhar para cuidar da escrita. Quando eu cuido do texto isso se reflete no meu próprio corpo, há um espelhamento entre corpo e texto. A gente escreve do modo que a gente vive. Então as falhas, os problemas da escritura são os problemas que a gente vivencia na vida.”, afirma ela. 

Se você não pratica essa modalidade de encontro consigo em seu mundo interior, eu aconselho fortemente a iniciar. Nada é realmente necessário além de caneta e papel, mas se preferir pode criar um ambiente para isso, colocando uma playlist de músicas que inspiram ou mesmo ouvindo uma meditação guiada de sua preferência para criar um estado emocional propício. 

Arriscar o risco da caneta sobre o papel em uma escrita automática, um poema ou uma história pode revelar muito sobre você. 

“Todos os dias a gente tem uma página em branco para escrever, todos os dias é um dia para viver. Te faço um convite para pegar a caneta e começar a escrever essa folha em branco de uma forma consciente. “ convida Taciana Collet do blog Vida de Adulto.

Por Carol Gaertner, que a escrita:

  • Seja a terapia da palavra diária
  • Te garanta mais poesia no olhar para encarar o dia a dia
  • Te permita criar e recriar a história da sua vida, quantas vezes for preciso
  • Te permita fazer uma viagem rumo ao interior de si mesme
  • Te permita se deslumbrar com um universo de infinitas possibilidades 
  • Te traga paz, além da criatividade

Se você quer se aprofundar neste tema, existem diversas oficinas de escrita criativa e curativa. Se seguir o fio das citações, encontrará muita inspiração. E logo eu e Marceli Mazur relançaremos a Jornada Florescer, que traz a escrita curativa como uma das práticas diárias. 

Fique ligade! Abraço de elevar e até a próxima!