A natureza é antifrágil

"Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar a voltar sempre inteira" - Cecília Meireless

2020 foi um ano de incertezas, perdas significativas, grandes desafios e planos adiados em que a vida foi totalmente alterada, aumentando o medo e a insegurança diante do caos.

Cada pessoa tem vivido a experiência a sua maneira, mas a maioria tem em comum um certo cansaço, a sensação de luto e a certeza de que a vida não voltará ao que era antes da pandemia. É possível que estejamos iniciando um período de profunda transformação no mundo e todas as pessoas estão sendo convidadas a descobrir novos caminhos, tendo de rever suas metas, examinar seus valores e repensar seus hábitos e relacionamentos. 

A maioria de nós esperava que 2021 fosse um ano que nos trouxesse esperança, mas seguimos em um cenário de muita imprevisibilidade e confusão, e muitas pessoas têm se sentido desvitalizadas, estressadas e sem direção. 

Será que teremos a capacidade de nos manter em fluxo após o atravessamento deste caos, continuar criando e nos refazer para trazer um novo sentido à vida e às nossas existências? 

Situações muito adversas tendem a estimular nossa resiliência emocional e nos exigir autorregulação e prontidão de resposta, mas talvez agora seja mais importante nos tornarmos melhores e mais fortes a partir dessa crise sanitária e política, diante das transformações e dos desafios que estão por vir. 

Gosto de emprestar a sabedoria da natureza: o carvalho é uma árvore milenar que tem como característica se fortalecer diante das intempéries, pois suas raízes se fincam no solo a cada tempestade, seu tronco se revigora, tornando mais difícil ser arrancado do solo pelos ventos fortes. Ele vai se transformando a cada temporal, de modo que parece ter feito um enorme esforço para se manter em pé. Desse modo, ele é usado como metáfora para a resistência e aceitação das forças naturais que se abatem sobre ele, mantendo-se sólido e imponente no local onde habita.

“A boa madeira não cresce com sossego, quanto mais forte o vento, mais fortes as árvores.”

- J. Willard Marriot

É sabido que a poda de uma árvore é um impulso de desenvolvimento, que faz com que cresça com mais força e melhora a qualidade de sua madeira. Talvez possamos emprestar o exemplo das árvores e entender que é possível crescer mesmo diante de eventos trágicos. 

No livro Antifrágil – Coisas que se beneficiam do Caos, o autor Nassim Nicholas Taleb nos convida a rever nosso padrão de controle e tirar partido da imprevisibilidade de eventos aleatórios, estabelecendo estratégias de sobrevivência diante das crises, com foco no próprio aperfeiçoamento. 

Estudos empíricos no campo da psicologia têm observado por meio de pesquisas com pessoas que sofreram traumas, como vítimas de ataques terroristas, pessoas acometidas por doenças graves como câncer e combatentes de guerra, que é possível sair melhor de uma situação adversa.

Esses estudos demonstram que algumas pessoas têm a capacidade de crescer diante de situações adversas e eventos trágicos, não desenvolvendo TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) e sim o chamado crescimento pós-traumático, conceito proposto pelos pesquisadores Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun e incorporado aos estudos da psicologia positiva. 

Esse conceito é muito bem representado pela arte japonesa Kintsugi, prática que consiste em consertar cerâmicas danificadas com ouro, tornando-as mais valiosas e únicas exatamente pelas marcas deixadas pelas quebras. 

Essa arte nos faz refletir sobre como lidamos com aquilo que nos acontece e como podemos nos tornar melhores e mais fortes a partir desses acontecimentos que nos atravessam. 

Isso se dá pela aceitação daquilo que me atravessa, incorporação das qualidades deixadas por esses cortes no fluxo do meu ser e a ação e movimento que voltam a me colocar em fluxo para novos encontros e eventos. Aproveitar as fissuras para se potencializar e as podas para crescer. 

Pessoas que se mantêm neste movimento interno de crescimento a partir daquilo que lhes acomete, tendem a adquirir uma maior apreciação pela vida, ampliar sua capacidade de se relacionar de modo compassivo e colaborativo, desenvolver sua criatividade e suas forças pessoais e criar um novo caminho e sentido para a vida.

“A vida não deixa de ser suportável por conta das circunstâncias, mas quando ela deixa de fazer sentido.”

- Viktor Frankl

E você? Como tem se sentido a partir dessa nova realidade que se apresenta? Tem conseguido restaurar sua esperança e capacidade de sonhar? Tem conseguido se organizar para transformar seus sonhos em realidade, traçando rotas e planejando os passos? Está conseguindo se conciliar com seus limites e entender o que é preciso fazer para florescer e germinar a sua vida? 

Veja abaixo oito dicas para se tornar mais forte e desenvolver sua antifragilidade e robustez:

  1. Veja as situações de incerteza como uma oportunidade de crescimento.
  2. Entenda que antifragilidade nasce da própria fragilidade, então não se ressinta das situações desfavoráveis, aprenda com elas.
  3. Busque estratégias de gerenciamento do estresse.
  4. Aceite suas emoções, elas são seus guias.
  5. Use a ansiedade a seu favor, tornando-a uma energia para o movimento e motivação para superar e criar.
  6. Estimule sua criatividade pensando em múltiplas soluções para uma mesma questão.
  7. Aceite a incerteza e a imprevisibilidade, abrace o caos e faça dele seu melhor estímulo.
  8. Transforme seu medo de mudanças em amor pelo risco.

Espero ter inspirado você. Abraços de elevar.