Amor é apreciação da presença divina em mim e no outro

“Você precisa se amar para amar o outro”. Você já deve ter ouvido ou lido essa frase incontáveis vezes e é provável que pense que o autoamor não é algo tão fácil de conquistar, o que não impede que sinta que ama outras pessoas.

Se você estiver buscando dicas de como aprimorar o autoamor ou mesmo sobre amor romântico, você certamente encontrará dezenas de ótimos artigos sobre isso em uma rápida pesquisa, mas não aqui. Caso contrário, se deseja uma inspiração sobre o amor por uma perspectiva ampliada, convido você a ler até o final. 

E, afinal, o que é o amor? Como você o vê? Como sabe que é amor o que está sentindo? E se é amor o que sente por algumas pessoas, como pode não o experimentar por si? 

Cada pessoa tem uma ideia ou definição de amor. Que o amor é um sentimento, uma emoção, um verbo ou um estado de espírito. “O amor não é uma emoção, o amor é a sua própria existência.” afirma Rumi, o poeta do amor no mais alto grau e que o exaltava como transcendência e cura de todo sofrimento. O amor que Rumi louvava era de outra ordem: o encontro do divino na experiência do amor humano, na alteridade, no encontro, no cotidiano da presença do outro em que me espelho e, ao mesmo tempo, me diferencio.

Você tem dentro de você mais amor do que jamais poderia entender.

Eu me identifico com a ideia que Rumi tinha sobre o amor, por isso as citações deste texto são seus poemas. 

Desde criança, acredito que o amor é uma substância viva e ativa no universo, na natureza, em todos os seres, humanos incluídos.  Para mim, o amor é tudo o que há, tenho até essa frase tatuada em meu braço. Na minha opinião, qualquer coisa que não seja amor, é uma distorção da realidade, como uma interferência na superfície do universo.

O amor é a água da vida, pule para dentro dessa água. Embebede-se de amor, porque o amor é tudo o que (realmente) existe.

Este amor a que me refiro não é aquele pessoal, experimentado pelas pessoas que escolhemos amar ou que as estruturas sociais nos impõem que amemos pelos papéis que assumimos. E tampouco me refiro ao fogo arrebatador da paixão, embora a chama do desejo é a energia que sustenta a vida. Falo daquela substância na qual nos sentimos mergulhar e que nos constitui, quando atingimos a verdadeira consciência de quem ou o que somos.

Os amantes não se encontram finalmente nalgum lugar. Eles sempre estiveram um dentro do outro.

Essa espécie de amor prescinde da presença física, já que tudo está interligado. E por reconhecer o outro como parte de mim, sua ausência não anula a nossa ligação. 

Esse amor não anseia exercer controle sobre o outro porque se o amo, desejo sua liberdade e sua felicidade. E me regozijo dela.

É um amor que não demanda, porque não se constitui na falta e sim na potência do amar. Não tenta mudar o outro, porque o aceita assim como é, com todas as suas falhas, que é “por onde a luz entra”.

Há uma vela no seu coração, pronta para ser acesa. Há um vazio na sua alma, pronto para ser preenchido.

É um amor no qual me reconheço e que experimento, independente de fatores externos. E somente por isso é que posso experimentá-lo na presença do outro.

E se me reconheço como a pura expressão desse amor, como poderia eu, então, não me amar profundamente? Como eu poderia não experimentar esse amor por mim se o experimento por outras pessoas, na mesma proporção?

Não temos nada além do amor. Não temos antes, princípio nem fim.

Acredito que quando nos aproximamos da fonte que nos criou e nos constitui, nos sentimos em plenitude, somos puro amor. Quando nos afastamos, sentimos falta do amor. Do mesmo modo, quando estamos em nós mesmas, imergindo nessa qualidade do amor puro, tudo parece fazer mais sentido e naturalmente nos sentimos amadas porque nos tornamos o próprio amor. Em tal estado, muitas de nossas barreiras interiores se dissolvem e experimentamos a mais pura expressão do divino. 

Por outro lado, ao nos afastarmos da fonte em nós, experimentarmos a falta, passamos a ver o amor de forma distorcida, ora como necessidade, ora como controle. Projetamos o amor fora de nós e o queremos de volta, por isso precisamos que o outro nos ame.

Nós carregamos dentro de nós as maravilhas que buscamos fora de nós.

Nessa aridez interior, exigimos reciprocidade, sentimos ciúmes, tentamos mudar o outro, nos diluímos no outro, perdendo nosso senso de identidade, embarcamos em seus sonhos, nos distanciando dos nossos, supervalorizamos o outro em detrimento de nós, sofremos a perda do amor com a perda da presença do outro, experimentamos os sentimentos de rejeição e de abandono, nos sentimos feridas e juramos que nunca mais iremos nos entregar, por medo de sofrer novamente, ou seguimos como uma alma esfaimada, buscando urgentemente o amor.

Sua tarefa não é buscar o amor, e sim, buscar e encontrar dentro de você todas as barreiras que ergueu contra ele e que o impede de fluir diretamente em você.

E é precisamente na entrega ao amor em si, o amor-próprio, o que já está dentro de nós, que curamos nossas feridas, nos sentimos acolhidas, espanamos a poeira, lustramos nossos melhores sentimentos e a joia do nosso coração pode voltar a brilhar. E para experimentar o amor verdadeiramente, siga os conselhos de Rumi:

A inspiração que você procura já está dentro de você. Fique em silêncio e escute, porque o mundo do silencio é uma vasta plenitude, então permita que ele leve você até o centro da vida. No silêncio do amor, você encontrará a centelha da vida, deixe que o amor e o silêncio sejam a arte que você pratica.

Espero que estas palavras tenham encontrado eco em seu coração e sua alma. Abraços de elevar e até a próxima!