A vida é movimento e mistério

Artwork: Marceli Mazur

Fui desafiada por minha amiga Flávia a falar sobre mudanças, porque ela acabou de se mudar de casa e eu também. Bem, esse é um tema sobre o qual posso falar com propriedade já que em 10 anos eu mudei de relacionamento 3 vezes, de casa 6 vezes com esta última mudança e de estado uma vez. Talvez eu tenha herdado um certo espírito nômade de meu pai. 

Diz-se que quem muda muito não cria raízes. Talvez não, mas certamente cria rizomas.

Não estou dizendo que mudanças são fáceis para mim, porque não são. Eu padeço do mesmo medo e resistência que a maioria das pessoas experimenta diante delas. E, embora um espírito irrequieto e aventureiro me arranhe por dentro, se entedia com rotina e se enamora de novidades, há outro que se sente seguro no hábito e tem preguiça de mudar. Mas eles coabitam e se entendem, embora às vezes entrem em conflito.

Já pensei demais antes de agir, demorando a assumir uma mudança inevitável. E já agi sem pensar, empreendendo uma mudança precipitada e sem muito planejamento. Porém, reconhecer que a principal mudança é a interna e que todo o resto vem a reboque, foi o que realmente alterou minha perspectiva.

E lhe afirmo que, se algo lhe incomoda em uma situação ou relacionamento, não é somente a situação ou o relacionamento que devem mudar, mas principalmente você. Afinal, por mais que mudemos de relacionamento, trabalho, casa, cidade ou país, sempre nos levamos conosco. De nós, não nos livramos. De modo que, antes de empreender qualquer mudança, é preciso mudar a nós e o modo como nos sentimos sobre as coisas e as pessoas para não seguirmos repetindo padrões.

Entender que nada está fora de você, que está implicada em absolutamente tudo que lhe acontece, lhe economiza tempo, energia, dinheiro e garante sua autonomia.

Hoje, quando estou me debatendo com minhas próprias resistências ou dificuldades em um processo de mudança, me lembro de minha última queda no parque: se tivesse relaxado o corpo durante o percurso até o chão, certamente teria doído menos.

Há um ditado popular que diz que se você demora a se decidir, a vida vem e decide por você. Afinal, as duas únicas certezas que temos nessa dança da existência é a iminência da morte e a impermanência da vida. Nada é imutável e eterno. Tudo que nos cerca está em constante mudança, movimento, transformação. A morte e o renascimento fazem parte da vida. Assim como as células do nosso corpo se transformam, morrem, nascem, se regeneram. Nossos corpos mudam com a passagem do tempo. Nossas relações se transformam ao longo da vida. Nossa vida muda por si mesma, fora de nosso controle. E algumas vezes muda totalmente e em um segundo. ⁣⁣

Mas, em geral, guardamos inúmeras reservas e enorme resistência a mudanças, quaisquer que sejam: de ideia, de comportamento, de hábitos, de aparência, de crenças, de relacionamento, de emprego, de status quo, de casa.

E, afinal, o que pode ser tão ruim em algo tão comum e natural quanto inevitável?

Medo, apego, resistência, hábito e necessidade de controle que caminham de braços dados, muitas vezes braços de ferro. São todos produtos do ego. Às vezes é preciso a vida ativa e consciente se lançar sobre eles para fazê-los bailar loucamente. Ego e consciência, dançando de mãos dadas no campo de infinitas possibilidades de mudança.

As mudanças, quando estamos num processo de apego, resistência e medo, podem ser difíceis e incômodas. Em compensação, quando alimentamos mais a confiança na vida que a necessidade de controle, podem se tornar uma incrível e deliciosa aventura.

No primeiro caso, estamos focados no que está fora de nós: estamos na separação. No segundo caso, estamos na frequência do fluxo da vida e em contato com as diversas possibilidades: estamos em conexão.

Eu percebo que todas as vezes que me mudo de casa, tenho de lidar com a quantidade de tralha desnecessária que eu juntei e com a quantidade de livros que eu comprei e aí me obrigo a pensar no que é essencial e o que eu posso viver muito bem sem. Como boa nômade, meu sonho é que minhas coisas todas caberão em duas malas (uma de livros). Infelizmente a realidade não é essa e, como boa acumuladora, estou tendo de jogar “tanta coisa fora, cartas e fotografias, gente que foi embora. Mas casa vai ficar melhor assim....”

Esse deslocamento me permite entrar em contato com outro tipo de experiência. Experiências que eu não teria se permanecesse no mesmo lugar.

E não é só sobre mudança de casa. Essa casa-corpo por exemplo. Essa casa necessariamente vai mudar. Resistir à mudança natural é a base de muito sofrimento, principalmente entre as mulheres, que sofrem uma pressão terrível sobre o envelhecimento.

O processo de envelhecer é um ótimo exemplo de mudança natural e inevitável. E as possibilidades dessa jornada são o resultado de tudo o que você criou ao longo da sua vida e do modo como você viveu seus dias. A mudança no seu corpo é inevitável e é permeada, mas não determinada, pelos estereótipos culturais e sociais. Então, a questão não é evitar, desacelerar, negar ou esconder, corrigindo o processo como somos estimuladas a fazer pela indústria de cosmético, culto ao corpo e cirurgia plástica. ⁣⁣A aceitação da inevitabilidade e imprevisibilidade do processo é a chave.

 Assumir o envelhecimento como um processo não menos importante e prazeroso da sua existência, abraçá-lo como uma fase não menos bela como qualquer outra que já viveu, buscando seu bem-estar acima de tudo.

Não se trata da melhor idade, porque as fases da vida não estão competindo. Este é um rótulo desnecessário que colocamos e que tenta dar conta do desconforto que a maioria das pessoas sente durante o processo. Esse desconforto poderia ser atribuído aos inúmeros padrões sociais e econômicos impostos. Eu o atribuo a nossa aceitação e anuência a eles.

O sofrimento em envelhecer é filho da resistência à mudança com o medo da dissolução que a morte trará.Veja a vida como movimento constante, fluxo infinito de mudança e os sinais da idade serão como marcas em uma pedra, que revelam toda a sua história.

Quando eu decidi assumir meus cabelos grisalhos, que os tenho desde os vinte e poucos, ouvi algumas críticas. Eu decidi que, se o embranquecimento dos meus fios é inevitável, não tinha sentido continuar ocultando o processo. E me lancei à máquina de cortar cabelos para retirar os fios louros como uma menina se lança num campo de girassóis. A menina dos cabelos brancos. E eu quero ser aquela velhinha que você irá encontrar no parque, brincando de se equilibrar sobre parapeitos de muros altos, escalar árvores ou se pendurar em barras e saltar.

Dentre todas as mudanças que venho empreendendo nessa existência, essa foi das mais fáceis para mim, porque decidi rejeitar veementemente padrões e opiniões sobre como uma pessoa de 50 anos deve se parecer, se vestir ou se comportar. Ou como a fruta madura desses anos deve ser saboreada.

Eu rejeito padrões de qualquer espécie de como qualquer pessoa de qualquer idade deve se parecer, se vestir, se comportar ou saborear a vida. Afinal, somos seres livres (ou deveríamos ser).

Livrar-se dos gabaritos, me despir de rótulos e quebrar paradigmas é uma missão para mim! E é igualmente desafiante e libertador, pode acreditar. Mas sei que há muito absurdo no mundo que requer mudanças imediatas e todas elas começam dentro de cada pessoa.

Mudar a cor do cabelo, o corte de cabelo, o jeito de se vestir, mudar de casa, de cidade, de país não é nada comparado com as mudanças interiores que urgem acontecer. É só perfumaria mesmo.

Mudanças reais são aquelas que se processam no lugar mais profundo dentro de nós.

Mude o modo como se vê, como pensa, como sente, mude o modo como está no mundo, mude sua linguagem, seus valores, suas crenças. Não se apegue à sua própria versão. A vida é uma constante atualização de si. O apego ao que passou, ao que você é, ao seu rosto, sua identidade, ao seu modo de vida, aos seus hábitos, aos seus modos de se relacionar, ao seu comportamento, aos seus padrões mentais, isso tudo é a causa do seu sofrimento, não o que vem de fora.

Quando você se apega a sua identidade por segurança e certo conforto no conhecido, sua vida se torna entorpecida, você se torna uma pessoa sedentária.Este é o verdadeiro conceito de sedentarismo: um estado interno engessado que não permite uma mudança profunda.

Então mesmo que você se desloque, que mude de casa, de cidade, de país, se esse deslocamento não acontecer dentro de você, como placas tectônicas que se desprendem e criam ali um certo caos, se desorganizam, causam desordem e fazem você perder a cabeça, se você não se entrega a desordem interna, se quer resposta para tudo, se quer uma fórmula de como viver melhor, de como ter sucesso, por mais que esteja em movimento, você é uma pessoa sedentária.

Ter certezas, segurança e conforto é muito pouco para a potência que nós somos. A vida é movimento e mistério.

Quando entender que você é a pura potência em acontecimento e permitir esse fluxo de vida que perpassa seu corpo te atravessar e te mover, quando parar de querer entender e interpretar tudo e se dedicar somente a sentir e a buscar se relacionar com as coisas e com as pessoas diretamente, mesmo que no campo virtual que é o possível hoje, sem querer controlar tudo, eu prometo que a vida vai mudar de verdade.

Viver é tecer os fios da vida sem medo da partida

(paráfrase de Potyguara Bardo)

No momento em que eu estava concluindo este texto, um pássaro entrou pela janela. Ele se debatia e se lançava contra o vidro tentando sair, eu tentava acalmá-lo e pegá-lo para soltá-lo, mas ele se debatia ainda mais e me bicava. Após inúmeras tentativas, consegui segurá-lo e soltá-lo e ele voou para a liberdade com um grito alto. Eu acredito que a vida é como as mãos que tentavam ajudar o pássaro, indicando o caminho. E o pássaro somos nós, nos debatendo, com medo da mudança.